terça-feira, 30 de junho de 2009

Meu último dia no cemitério... Vivo, é claro.

Pois bem, como venho fazendo há alguns dias, tomei a proa do cemitério da Saudade, depois do almoço. Adentrei a referida necrópole com intuído de finalizar minha pesquisa de campo. Percorri toda avenida principal, observando cada construção, e conjuntamente, um vento forte, daqueles que vem junto com a chuva, esvoaçava meus cabelos, digo, judiava de meu rosto cansado do trabalho árdua nas plantações de algodão.(Pronto, ficou um pouco melhor!).
Percorri uma grande extensão até chegar na Rua 6, esquina com a Travessa G. Mais especificamente na quadra 80. Retirei da bolsa laranja a caneta e o caderno. A máquina fotográfica já estava pendurada no pescoço, pronta para nesse trajeto captar alguma cena inusitada, algum gato maluco, algum morto vivo, chupa-cabra ou sei lá o que possa aparecer no cemitério. Na verdade, meu sonho é ver um fogo fátuo. Essa minha fissura, digamos assim, pelo fogo fátuo se deu depois de ler junto com meu grande amigo Grella, uma passagem de Fausto, do alemão serelepe Johann Wolfgang von Goethe. A passagem dizia o seguinte:


... Um fogo-fátuo! Bravo! Há-de dar licença
de o chamar. Fraca luz val mais que sombra densa.
Uh! uh! ó da luzerna! Há-de ter a bondade
de vir mais para aqui. Não gaste a claridade
assim sem mais nem mais. Obséquio nos faria,
se nos fosse diante a destrinçar-nos via
por esta serra acima!


A partir de então, o fogo fátuo fazer parte da minha vida. Não que eu tenha feito um trato com o tinhoso, mas pelo fato de querer ver um. Para quem não sabe, segundo o santo google:


Fogo-fátuo (ignis fatuus em latim), também chamado de Fogo tolo ou, no interior do Brasil, Fogo corredor ou João-galafoice, é uma luz azulada que pode ser avistada em cemitérios, pântanos, brejos, etc. É a inflamação espontânea do gás dos pântanos (metano), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.


Mas deixa esse papo de fogo-fátuo pra lá, afinal minha intenção agora é outra.
Como ia dizendo, comecei meu trabalho de levantamento. Embora restassem algumas quadras, as construções de real interesse eram poucas, então percebi de início que finalizaria o levantamento. Caminhei despreocupado, anotando apenas as informações que me interessavam. Pensei que, ao contrário da centena de construções catalogadas por dia, nas minhas visitas anteriores, hoje o número certamente não superaria cinqüenta. E não superou, exatamente trinta e sete, nenhuma a mais, nem a menos. Curiosamente encontrei outro “Bastião” que tivera suas flechas furtadas. Pensei: Será que estou diante de uma quadrilha especializada em roubos de flechas? Pobre Bastião.
Retornando ao portal monumental do referido cemitério, de estilo neoclássico e cheio de trililis, começou a me surgir um pensamento. Percebi que eu agora não mais teria que me dirigir diariamente pra cá para trabalhar. Nesse instante me bateu uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza. Eu gosto do cemitério, porém cansa ficar andando, andando, andando e vendo bizarrices arquitetônicas. Calma... Não estou dizendo que tudo que existe lá é bizarro. Existe muita coisa bonita, interessante. Não me refiro apenas às obras do final do século XIX e começo do XX. Falo da arquitetura sem arquitetos, dos pedreiros minha gente! Eles fazem umas coisas muito bacanas, inovam, misturam e na maioria dos casos tudo vira Kitsch. E esses exageros, essa distorção, às vezes criam coisas bizarras.
Mas as bizarrices eu apresento outro dia.
Cansado, feliz e triste, tudo ao mesmo tempo, lembrei das pessoas que trabalham no cemitério, coveiros, pessoal da limpeza, administração e imaginei como seria se alguém viesse ao meu encontro e perguntasse:
Você já acabou o trabalho? Quando volta?
E eu responderia:
- Já terminei, e aqui não volto nunca mais!
Como? Nunca mais? Primeiro que não tenho motivos para não voltar, como já disse, gosto de lá. Mas digamos que minha meia mente, não sei se a lúcida ou a louca estivesse me jogando contra esse apreço que tenho por cemitério, será mesmo que eu nunca mais voltaria?
Claro que voltaria, Paulo seu bobo! Hoje seria meu último dia no cemitério sim, mas como vivo. Se tivesse que voltar, seria para nunca mais sair de lá.
E minha meia mente problemática, zombaria de todos assim:

"Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos." ( Igual da Capela dos Ossos, em Évora, Portugal)


Ou na versão brasileira, encontrada em alguns cemitérios:

“Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

Que assim seja!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sacanagem com o "Bastião"

Para inaugurar esse meu “blog”, no qual dei o nome de “Fragmentos de uma mente semilúcida” (agora sem hífen e junto!), resolvi relatar uma coisa que aconteceu hoje em minha pesquisa de campo, no Cemitério da Saudade em Piracicaba.
Embora o título possa parecer até certo ponto, digamos, pornográfico, o acontecido se deu por um outro viés.
Iniciava minha procura diária dentro do referido campo santo, atrás de construções tumulares que se encaixassem dentro do meu projeto. Observava a sua relevância artísticas, os elementos iconográficos, materiais, além, é claro, da importância histórica, seja do presunto, ou melhor, do inumado, seja da própria construção.
Eis que me deparo com um jazigo (chamo de jazigo as construções que alocam mais de um presunto, digo morto, quer dizer inumado), de estilo moderno, de granito negro polido que trazia a escultura de São Sebastião.
Ah!, voltando para algumas considerações, quero deixar claro que não quero fazer apologia a religião, seja ela católica, protestante, espírita, xiita, sunita, pokémon ou qualquer coisa. Respeito os cultos religiosos, suas linhas de pensamento e tudo mais. Mas deixo claro que essas minhas experiências com cemitério, no caso o da Saudade, que é um cemitério municipal, mas que, em sua totalidade é ocupado por famílias católicas, sempre me remetem ao ideário dessa vertente religiosa, seja para descobrir o nome do santo que decora a capelinha amarelinha, seja para saber o nome do barbudo que é retratado em bronze ou da criança que foi pintada no azulejo. Me desculpo desde já para os mais fervorosos ou ortodoxos, pois costumo tratar os santos com nomes carinhosos. Por exemplo, São Jorge, eu dispenso o são, e fica Jorjão ( Jorjão é Coringão!), Jesus... é Jesus, embora ora ele apareça crucificado, ora como um bom pastor, ora arregaçando as mangas e carregando uma pesada cruz. Nesse referido “causo”, ao final, vocês também vão entender o porque de “Bastião”, ao invés de São Sebastião!
Observando a construção tumular, verifiquei que ela poderia fazer parte do inventário e iniciei as anotações. Nome da família, do sepultado mais antigo, datas, artista que construiu, adornos, esculturas (olhei para “São Sebastião” que estava bem amarrado no seu tradicional tronco). Comecei a fotografar, foto geral, detalhe nos nomes, nas rubricas... Ah... Vamos a escultura. Era de tamanho legal, acho que foi a primeira do referido santo, encontrada em minhas andanças. Já havia encontrado pinturas, mas escultura não. Fotografei de frente, de lado, de perto. Opa! Tem algo errado aqui. Pensei que estivesse me precipitado ao dar de cara, nome ao boi, no caso ao santo.
Ele possuía os atributos de São Sebastião, para quem não sabe, ele foi soldado romano e depois de muitos “BO´s” como dizem os policiais por aqui, ele foi condenado. Sua morte seria por meio de flechadas! Não! Não era para bater nele com as flechas e sim, brincar de Guilherme Tell ou Robin Hood (calma essas indicações são minhas... esses dois cavalheiros supracitados, são contemporâneos ao Sebastião romano) com ele.
Pois bem, voltando ao cemitério, notei que essa escultura não possuía flechas! A principio pensei ser uma opção do artista, que seria bem interessante de analisar, mas estava errado, observando com detalhes (foto1), percebi que algum larápio, surrupiou sorrateiramente (olha o cara é quase um “ladrão invisível”) as flechas de São Sebastião. Ele se encontrava ali, amarrado, me olhando e quem sabe se perguntando –“Você que anda pelo cemitério inteiro por um acaso não encontrou algumas flechas por ai?”
Fiquei observando e pensando, quem foi o espírito de porco, ladrão de bronze que roubou apenas as flechas de São Sebastião? Furtar é errado, mas já que ia fazer e correr o risco de ser pego, levasse o conjunto todo! E agora, como vou colocar no inventário? É a escultura de São Sebastião? Ou é apenas o Sebastião, soldado romano?
Ah... Isso é uma tremenda sacanagem com o Bastião!
Bem, esse pequeno relato, embora pareça engraçado, serve para ilustrar o quão vulneráveis são os cemitérios brasileiros, que são descaradamente furtados por pessoas que destroem um patrimônio valiosíssimo, para vender a quilo, as obras de artes que compõem os cemitérios.
Na verdade, esse“post” ficou parecendo o desenho do He-man, que depois da narrativa, sempre tinha uma lição de moral, mas é assim, muitas pessoas só aprendem quando submetidas a esse tipo de “tortura”!