Percorri uma grande extensão até chegar na Rua 6, esquina com a Travessa G. Mais especificamente na quadra 80. Retirei da bolsa laranja a caneta e o caderno. A máquina fotográfica já estava pendurada no pescoço, pronta para nesse trajeto captar alguma cena inusitada, algum gato maluco, algum morto vivo, chupa-cabra ou sei lá o que possa aparecer no cemitério. Na verdade, meu sonho é ver um fogo fátuo. Essa minha fissura, digamos assim, pelo fogo fátuo se deu depois de ler junto com meu grande amigo Grella, uma passagem de Fausto, do alemão serelepe Johann Wolfgang von Goethe. A passagem dizia o seguinte:
... Um fogo-fátuo! Bravo! Há-de dar licença
de o chamar. Fraca luz val mais que sombra densa.
Uh! uh! ó da luzerna! Há-de ter a bondade
de vir mais para aqui. Não gaste a claridade
assim sem mais nem mais. Obséquio nos faria,
se nos fosse diante a destrinçar-nos via
por esta serra acima!
A partir de então, o fogo fátuo fazer parte da minha vida. Não que eu tenha feito um trato com o tinhoso, mas pelo fato de querer ver um. Para quem não sabe, segundo o santo google:
Fogo-fátuo (ignis fatuus em latim), também chamado de Fogo tolo ou, no interior do Brasil, Fogo corredor ou João-galafoice, é uma luz azulada que pode ser avistada em cemitérios, pântanos, brejos, etc. É a inflamação espontânea do gás dos pântanos (metano), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.
Mas deixa esse papo de fogo-fátuo pra lá, afinal minha intenção agora é outra.
Como ia dizendo, comecei meu trabalho de levantamento. Embora restassem algumas quadras, as construções de real interesse eram poucas, então percebi de início que finalizaria o levantamento. Caminhei despreocupado, anotando apenas as informações que me interessavam. Pensei que, ao contrário da centena de construções catalogadas por dia, nas minhas visitas anteriores, hoje o número certamente não superaria cinqüenta. E não superou, exatamente trinta e sete, nenhuma a mais, nem a menos. Curiosamente encontrei outro “Bastião” que tivera suas flechas furtadas. Pensei: Será que estou diante de uma quadrilha especializada em roubos de flechas? Pobre Bastião.
Retornando ao portal monumental do referido cemitério, de estilo neoclássico e cheio de trililis, começou a me surgir um pensamento. Percebi que eu agora não mais teria que me dirigir diariamente pra cá para trabalhar. Nesse instante me bateu uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza. Eu gosto do cemitério, porém cansa ficar andando, andando, andando e vendo bizarrices arquitetônicas. Calma... Não estou dizendo que tudo que existe lá é bizarro. Existe muita coisa bonita, interessante. Não me refiro apenas às obras do final do século XIX e começo do XX. Falo da arquitetura sem arquitetos, dos pedreiros minha gente! Eles fazem umas coisas muito bacanas, inovam, misturam e na maioria dos casos tudo vira Kitsch. E esses exageros, essa distorção, às vezes criam coisas bizarras.
Mas as bizarrices eu apresento outro dia.
Cansado, feliz e triste, tudo ao mesmo tempo, lembrei das pessoas que trabalham no cemitério, coveiros, pessoal da limpeza, administração e imaginei como seria se alguém viesse ao meu encontro e perguntasse:
Você já acabou o trabalho? Quando volta?
E eu responderia:
- Já terminei, e aqui não volto nunca mais!
Como? Nunca mais? Primeiro que não tenho motivos para não voltar, como já disse, gosto de lá. Mas digamos que minha meia mente, não sei se a lúcida ou a louca estivesse me jogando contra esse apreço que tenho por cemitério, será mesmo que eu nunca mais voltaria?
Claro que voltaria, Paulo seu bobo! Hoje seria meu último dia no cemitério sim, mas como vivo. Se tivesse que voltar, seria para nunca mais sair de lá.
E minha meia mente problemática, zombaria de todos assim:
"Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos." ( Igual da Capela dos Ossos, em Évora, Portugal)
Ou na versão brasileira, encontrada em alguns cemitérios:
“Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.
Que assim seja!
eu quero fogo fátuo.
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