segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sacanagem com o "Bastião"

Para inaugurar esse meu “blog”, no qual dei o nome de “Fragmentos de uma mente semilúcida” (agora sem hífen e junto!), resolvi relatar uma coisa que aconteceu hoje em minha pesquisa de campo, no Cemitério da Saudade em Piracicaba.
Embora o título possa parecer até certo ponto, digamos, pornográfico, o acontecido se deu por um outro viés.
Iniciava minha procura diária dentro do referido campo santo, atrás de construções tumulares que se encaixassem dentro do meu projeto. Observava a sua relevância artísticas, os elementos iconográficos, materiais, além, é claro, da importância histórica, seja do presunto, ou melhor, do inumado, seja da própria construção.
Eis que me deparo com um jazigo (chamo de jazigo as construções que alocam mais de um presunto, digo morto, quer dizer inumado), de estilo moderno, de granito negro polido que trazia a escultura de São Sebastião.
Ah!, voltando para algumas considerações, quero deixar claro que não quero fazer apologia a religião, seja ela católica, protestante, espírita, xiita, sunita, pokémon ou qualquer coisa. Respeito os cultos religiosos, suas linhas de pensamento e tudo mais. Mas deixo claro que essas minhas experiências com cemitério, no caso o da Saudade, que é um cemitério municipal, mas que, em sua totalidade é ocupado por famílias católicas, sempre me remetem ao ideário dessa vertente religiosa, seja para descobrir o nome do santo que decora a capelinha amarelinha, seja para saber o nome do barbudo que é retratado em bronze ou da criança que foi pintada no azulejo. Me desculpo desde já para os mais fervorosos ou ortodoxos, pois costumo tratar os santos com nomes carinhosos. Por exemplo, São Jorge, eu dispenso o são, e fica Jorjão ( Jorjão é Coringão!), Jesus... é Jesus, embora ora ele apareça crucificado, ora como um bom pastor, ora arregaçando as mangas e carregando uma pesada cruz. Nesse referido “causo”, ao final, vocês também vão entender o porque de “Bastião”, ao invés de São Sebastião!
Observando a construção tumular, verifiquei que ela poderia fazer parte do inventário e iniciei as anotações. Nome da família, do sepultado mais antigo, datas, artista que construiu, adornos, esculturas (olhei para “São Sebastião” que estava bem amarrado no seu tradicional tronco). Comecei a fotografar, foto geral, detalhe nos nomes, nas rubricas... Ah... Vamos a escultura. Era de tamanho legal, acho que foi a primeira do referido santo, encontrada em minhas andanças. Já havia encontrado pinturas, mas escultura não. Fotografei de frente, de lado, de perto. Opa! Tem algo errado aqui. Pensei que estivesse me precipitado ao dar de cara, nome ao boi, no caso ao santo.
Ele possuía os atributos de São Sebastião, para quem não sabe, ele foi soldado romano e depois de muitos “BO´s” como dizem os policiais por aqui, ele foi condenado. Sua morte seria por meio de flechadas! Não! Não era para bater nele com as flechas e sim, brincar de Guilherme Tell ou Robin Hood (calma essas indicações são minhas... esses dois cavalheiros supracitados, são contemporâneos ao Sebastião romano) com ele.
Pois bem, voltando ao cemitério, notei que essa escultura não possuía flechas! A principio pensei ser uma opção do artista, que seria bem interessante de analisar, mas estava errado, observando com detalhes (foto1), percebi que algum larápio, surrupiou sorrateiramente (olha o cara é quase um “ladrão invisível”) as flechas de São Sebastião. Ele se encontrava ali, amarrado, me olhando e quem sabe se perguntando –“Você que anda pelo cemitério inteiro por um acaso não encontrou algumas flechas por ai?”
Fiquei observando e pensando, quem foi o espírito de porco, ladrão de bronze que roubou apenas as flechas de São Sebastião? Furtar é errado, mas já que ia fazer e correr o risco de ser pego, levasse o conjunto todo! E agora, como vou colocar no inventário? É a escultura de São Sebastião? Ou é apenas o Sebastião, soldado romano?
Ah... Isso é uma tremenda sacanagem com o Bastião!
Bem, esse pequeno relato, embora pareça engraçado, serve para ilustrar o quão vulneráveis são os cemitérios brasileiros, que são descaradamente furtados por pessoas que destroem um patrimônio valiosíssimo, para vender a quilo, as obras de artes que compõem os cemitérios.
Na verdade, esse“post” ficou parecendo o desenho do He-man, que depois da narrativa, sempre tinha uma lição de moral, mas é assim, muitas pessoas só aprendem quando submetidas a esse tipo de “tortura”!


2 comentários: